6. - Vem pra rua slz

Ontem, quarta-feira, 19 de junho de 2013, São Luís foi pra rua.
A contagem varia entre 15 a 20 mil pessoas e entre elas lá estava eu.
Passei a tarde com uns amigos fazendo cartazes e pintando camisas
pra nos juntarmos a todas as outras cidades do país que já haviam ido lutar por um Brasil melhor.
Quando entramos na caminhada, eles já estavam passando pela praça Maria Aragão e não consigo explicar 
a emoção de ver tanta gente junta gritando por melhorias.
Fomos todo o caminho escoltado por policiais, mas sempre de forma pacífica. 
Foi algo realmente bonito de se ver!
Nos desencontramos de uma pessoa do grupo e acabamos ficando pra trás,
o que foi ótimo porque tivemos a visão da rua toda tomada de pessoas e cartazes. 
Depois, decidimos subir a rua e ir mais pra perto. 
A Polícia Militar havia barrado a manifestação de se aproximar dos dois Palácios (prefeitura e casa do governo) e alguns manifestantes estavam montando um grupo para ir conversar com o responsável e pedir a liberação da passagem do movimento.
Entramos mais no meio da multidão e decidimos nos afastar das barras de ferro que impediam a passagem, 
se houvesse algum confronto ali seria o primeiro foco.
Muito tempo foi passando e encontrei vários amigos e conhecidos no meio da multidão. Vi pessoas tentando quebrar a barreira, um cara sendo preso, milhares gritando "sem violência", pessoas incitando brigas e outras ajudando a pararem elas; vi o povo setando e pedindo a todos que sentassem quando a cavalaria chegou. 
Vi pessoas levantarem as pressas com medo do que podia acontecer, ouvi gritos, aplausos e vaias. 
Ouvi bombas - as mesmas de efeito moral da PM- sendo jogadas por uns dentro do próprio movimento; e vi foguetes sendo lançados pra comemorar o "gigante" que "acordou".
Ouvi alguém perto de mim dizer que tinham pichado a fachada da prefeitura; nos afastamos mais ainda. Encontramos mais amigos e unimos os grupos, sempre nos mantendo a uma distância segura e em um local de fuga estratégico.
Ninguém que vai protestar pacificamente quer apanhar da polícia!
Por um tempo continuamos assim, conversando, gritando e animados, mas sempre atentos. Alguns manifestantes quebraram as grades e conseguiram ir pra frente do Palácio dos Leões, a multidão gritou mais alto ainda.
Helicópteros sobrevoavam o tempo todo e sempre se escutava um coro de vaias; nessa hora, eu vi um homem em cima do leão que fica em frente ao Palácio; até comentei que esse cara lembraria disso pelo resto da vida dele.
Passaram-se mais um tempo e até então (tirando eventuais pichações, sons de bombas de efeito moral e foguetes) tudo estava calmo. 
Não sei bem em que momento tudo começou, mas de repente, todos começaram a correr, inclusive eu. 
Era um alarme falso! E tiveram outros; tantos que nem lembro quantos.
Estávamos mais próximos de novo e uma das meninas disse que era melhor nos afastarmos porque um parente era da polícia e tinha avisado ela que haviam recebido ordens de repreensão.
Saímos de perto, mas nada de confusão. Ficamos longes, cansados e com sede. Eu me sentei na rua e nunca me arrependi tanto.
Ouvi gritos mais altos e pessoas correndo desesperadas, me levantei em um pulo com medo de me pisotearem e corri também. Outro alarme falso!
Passou mais um tempo entre gritos e alarmes falsos até que um som de vidro quebrando me assustou. Corri pro outro lado da rua e só então entendi o que havia acontecido: alguém passou e quebrou o vidro de uma agência bancária do nosso lado. Uma das pessoas no meu grupo se cortou, mas apenas de leve. 
Ficamos nervosos e nos preparando pra ir embora, mas o sentimento de não querer abandonar o movimento nos impedia. 
Nessas hora, vimos vários homens descerem a rua em que estávamos. Eles foram pegar pedras.
Não qualquer pedras, mas as mesmas pedras que estão espalhadas por toda a área histórica da cidade: os paralelepípedos do chão das ruas.
Quebraram as pedras e enchiam mochilas e mãos com elas. Um cara passou com um saco de lixo gritando "Vamos colocar lixo na prefeitura". Ridículo!
E isso aconteceu várias vezes, os mesmos homens indo e voltando buscar pedras das ruas pra atirar na polícia.
Olhamos de longe as pedra voando em direção ao Palácio dos Leões. E nessa hora, parte do grupo decidiu ir embora.; outro corre-corre falso e eles tiveram certeza de que já tinha dado a hora e saíram.
Pouco depois, centenas de pessoas gritando, pedras voando e correria, só que dessa vez real. 
Não sei se a polícia repreendeu, estava muito longe pra conseguir ver, mas várias pessoas correram e muitas não voltaram.
Descemos a rua e nos reunimos, voltamos, correria de novo; e então uma amiga minha que tinha ido no outro grupo me ligou dizendo que tinha falado com um policial e que ele avisou que a PM ia fechar o cerco. 
Decidimos então sair de lá e prezar pela nossa segurança. Foi quando encontramos um policial e relatamos sobre as pedras que estavam sendo retiradas.
Ficamos um tempo perto da escadaria ao lado do Teatro e, finalmente, conseguimos nos reencontrar com uma das meninas do grupo que tinha se perdido no começo.
Mas ainda assim não queríamos abandonar a manifestação.
Vimos várias pessoas saindo e até ouvimos uns jovens dizendo que seria feita uma reunião pra definir que rumo o protesto de sábado iria tomar.
Subimos uma das ruas de acesso ao Palácio e vimos movimento e bagunça.
De uma hora pra outra, mas duas correrias e, nessa hora, decidi que eu ficaria há uma distância segura daquela área.
Nos reunimos em um lugar onde ainda daria pra ver o que acontecia, assim como outras pessoas também fizeram.
O que nós vimos foram as cenas que mais me chocaram na vida: homens de rosto coberto descendo a rua e atacando um carro, jogando pedras e tentando atear fogo (o que felizmente não deu certo); um cara se pendurou numa placa de trânsito e tentou derrubá-la, mas não conseguiu.
Mais pessoas voltaram, pegaram mais pedras e voltaram a jogar no carro. Enquanto isso acontecia, no começo da rua estava a cavalaria, claramente vendo o que acontecia. Mas eles nem sequer se moveram.
Nós que estávamos mais abaixo gritamos pra pararem e vimos alguns policiais vindo da nossa direção e subindo a rua calma e lentamente. Enquanto eles subiam, colocaram fogo em uma lixeira. Eles passaram do lado do fogo e nem assim fizeram nada a respeito. 
Saímos de lá, voltamos pra perto do Teatro e vimos os mesmos policiais que subiram descendo rindo. Como se alguma coisa ali tivesse graça.
Homens com as caras cobertas desceram e ficaram nas praças e, nessa hora, eu vi um homem passar na frente do posto da PM com uma pedra imensa na mão e mais uma vez, a polícia não fez nada.
Decidimos ir embora, tristes e decepcionados. Passamos pela mesma rua anterior e ainda tinha gente quebrando o carro. 
No caminho de volta, encontramos dois grupos de policiais e paramos pra alertar sobre o carro, mas nenhum deles se moveu pra fazer algo. 
Nessa hora que eu pudi ver o que tinha acontecido com a manifestação: a frente do Palácio dos Leões ainda cheia de gente gritando, policiais parados como se estivesse tudo na mais perfeita paz, grupos de pessoas com os rostos cobertos sentados e a frente do Palácio La Ravardière toda pichada e com as janelas quebradas. 
Na rua bem ao lado, ainda encontramos um grupo pichando a lateral da Prefeitura, mais uma vez com a PM bem na frente sem fazer nada. 
Saí de lá numa mistura de tristeza, frustração e vergonha que ofuscou totalmente a minha alegria anterior.
É realmente triste ver como uma minoria é capaz de destruir os sonhos da maioria; e é mais triste ainda ver que aqueles que deveriam nos proteger compactuam com esse tipo de coisa. Porque ao meu ver, a polícia estava de acordo com toda a depredação que aconteceu ontem. É claro que eles devem ter recebido ordem superiores e que nem todos se encaixam nesse grupo, mas é como eu disse:  uma minoria é capaz de destruir os sonhos da maioria.
Depois de ver tudo isso, passei pelas mesmas ruas em que havia passado durante a caminhada e isso me fez lembrar de toda a emoção que foi ver tantos maranhenses ali, caminhando e pedindo, clamando, exigindo um Brasil melhor. 
No fim das contas, valeu a pena ter ido. Valeu a pena ter passado por todas essas coisas e ter visto tudo que eu vi. Valeu a penas apenas porque eu posso ter orgulho de mim e de todas as pessoas que estavam lá e realmente queriam uma mudança. 
Foram milhares de pessoas no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Curitiba, Berlim, Dublin,  Nova York... e agora também em São Luís. 
Parece que dessa vez o Maranhão não foi o último e, por isso, vale a pena comemorar.

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Metas 2015

  • Fazer 4 tatuagens.
  • Emagrecer.
  • Dar início ao projeto da minha linha de lingerie.
  • Conhecer pessoas.
  • Conhecer a mim mesma.
  • Aprender a desenhar.
  • Aprender a costurar.

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